Fuja da Psicologia Tomista

Há algo de sedutor no recente retorno da chamada psicologia tomista. Ela se apresenta como sólida, ordenada, metafisicamente segura, oferecendo ao sujeito contemporâneo aquilo que lhe falta: estrutura, finalidade, hierarquia. Mas é justamente aí que reside o seu perigo teórico e clínico. O que se vende como cura é, na prática, a reembalagem de um moralismo antigo que, longe de aliviar o sofrimento psíquico, o intensifica ao fortalecer a instância mais patológica da vida psíquica: o superego.

A psicologia tomista parte de uma antropologia normativa. Ela não descreve o homem tal como ele é, mas tal como deveria ser. As faculdades da alma, os apetites, as virtudes e os vícios são organizados em um sistema que já nasce com juízo embutido. Antes mesmo que o sujeito fale, ele já está condenado ou absolvido por um ideal prévio de ordem racional e moral. Isso desloca a psicologia do campo da escuta para o campo do tribunal.

O problema não é Tomás de Aquino — cuja obra é filosófica, teológica e não clínica —, mas a psicologização tardia de sua metafísica. Ao transformar uma ética das virtudes em método terapêutico, cria-se uma confusão grave: sofrimento psíquico passa a ser tratado como falha moral. Angústia vira falta de temperança. Desejo vira desordem. Conflito interno vira déficit de virtude. O resultado é previsível: o sujeito não se compreende, se acusa.

É aqui que a psicologia tomista alimenta diretamente a patologia do superego. Em vez de operar uma mediação simbólica entre pulsão e consciência, ela reforça a voz que cobra, vigia e pune. O superego deixa de ser interrogado e passa a ser sacralizado. Sua crueldade é legitimada em nome da razão, da lei natural ou da vontade divina. O sujeito não sofre apesar do ideal, sofre por causa dele.

Do ponto de vista psicanalítico, isso é um retrocesso grave. Freud já havia demonstrado que quanto mais severo o ideal, mais violenta se torna a instância superegóica. A culpa não diminui com a moralização; ela se sofistica. A psicologia tomista ignora esse dado estrutural e insiste em prescrever virtude onde seria necessário interpretar desejo. Em vez de elaborar o conflito, ela o recalca sob a forma de dever.

Há ainda um efeito colateral silencioso: a produção de sujeitos aparentemente ajustados, mas internamente paralisados. Pessoas que “fazem o certo”, dizem o correto, pensam dentro da ortodoxia e, ainda assim, carregam sintomas persistentes: ansiedade crônica, escrúpulos obsessivos, impotência decisória, inibição do desejo. A clínica se torna uma pedagogia do bom comportamento, não um espaço de transformação subjetiva.

O moralismo tomista, travestido de psicologia, também impede algo essencial: a individuação da consciência. Ao oferecer respostas prontas sobre o bem, o mal e o fim último do homem, ele rouba do sujeito a tarefa — sempre dolorosa — de se confrontar com suas próprias contradições. Não há travessia, apenas adequação. Não há elaboração, apenas submissão.

Uma psicologia verdadeiramente comprometida com a saúde psíquica precisa ter coragem de suportar a ambiguidade moral do humano. Precisa reconhecer que o desejo não é educável por decreto, que o conflito não se resolve por obediência, e que a virtude, quando existe, nasce de um trabalho interno — não da imposição de um ideal externo.

A psicologia tomista pode ser útil como ética, como filosofia moral, como visão de mundo. Mas, quando se pretende clínica, ela falha. Falha porque confunde cura com correção. Falha porque substitui escuta por norma. Falha porque transforma o superego em juiz supremo e chama isso de saúde.

E talvez seja isso o que mais me entristece, confesso com toda a delicadeza que me cabe: ver sujeitos tão sensíveis, tão intensos, tão profundamente humanos, sendo esmagados não por seus impulsos, mas por um ideal que lhes promete salvação enquanto lhes rouba o fôlego.

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