Minha Abordagem

Autoconhecimento

Ao falar livremente, o paciente passa a se ouvir. Nesse movimento, aquilo que parecia apenas relato de fatos revela padrões de repetição, conflitos internos, defesas, desejos contraditórios e modos recorrentes de se relacionar com o mundo. Sustento esse espaço sem julgamento, para que a verdade psíquica possa emergir sem censura. Ou seja, não há espaço para julgamentos.

Conduzo todo o processo a partir da perspectiva tripartida do homem: Cérebro, psique e consciência. Isso significa que não reduzo o sofrimento humano a um único nível. Considero os condicionamentos corporais e hábitos concretos, a dinâmica psíquica dos afetos, desejos e defesas, e também a dimensão espiritual, entendida como eixo de sentido, valores e orientação existencial. Essa visão impede tanto o biologicismo quanto o psicologismo raso, permitindo uma compreensão mais integral do sujeito.

Intervenho de forma pontual, precisa e econômica. Não explico o paciente para ele; eu o confronto com o que ele mesmo diz. Destaco incoerências, lapsos, insistências temáticas e deslocamentos afetivos, ajudando-o a perceber estruturas internas que antes operavam de maneira automática e inconsciente.

Um eixo central do meu trabalho é promover a dissociação consciente entre o sujeito e seus conteúdos psíquicos. Ajudo o paciente a distinguir aquilo que ele sente, pensa ou deseja daquilo que ele é. Com isso, ele deixa de se confundir com sintomas, impulsos ou narrativas internas, desenvolvendo uma consciência mais individuada e lúcida.

Ao longo do processo, os conflitos deixam de ser apenas fontes de sofrimento e se tornam instrumentos de compreensão. O paciente passa a entender a lógica de seus dilemas, reconhece suas responsabilidades, identifica ganhos ocultos no sofrimento e abandona explicações fantasiosas sobre si mesmo. Muitos problemas emocionais se tornam obsoletos justamente porque perdem sua função psíquica.

O autoconhecimento que facilito não é apenas intelectual. Ele se traduz em maior liberdade interna, capacidade de escolha e coerência entre valores, desejos e ações. O paciente deixa de reagir cegamente à própria história e passa a se posicionar diante dela, conhecendo sua própria mente e ressignificando sua própria história.

Desenvolvimento da Personalidade

Parto do princípio de que a personalidade não é algo dado, pronto ou estável, mas uma construção progressiva, que se organiza à medida que o sujeito se apropria de si mesmo. As chamadas 12 camadas da personalidade não são estágios rígidos, mas níveis de profundidade nos quais o indivíduo passa a reconhecer, integrar e ordenar aspectos distintos de sua existência.

Nos níveis mais superficiais, ajudo o paciente a identificar sua persona social, seus papéis, máscaras, hábitos automáticos e modos de adaptação. Aqui, o trabalho consiste em separar o que é convenção, expectativa externa e repetição inconsciente daquilo que de fato lhe pertence. Muitos conflitos se dissolvem quando o sujeito percebe que está vivendo uma identidade emprestada.

À medida que avançamos, entramos nas camadas emocionais e impulsivas. Conduzo o paciente a reconhecer seus afetos dominantes, seus padrões de desejo, medo, culpa e agressividade, sem moralização e sem fusão com esses conteúdos. O desenvolvimento da personalidade exige que ele suporte ver suas próprias contradições e ambiguidades, em vez de reprimi-las ou justificá-las.

Em camadas mais profundas, trabalhamos as estruturas de valor, sentido e decisão. Aqui, o paciente começa a perceber a lógica que organiza suas escolhas ao longo da vida. Ajudo-o a distinguir entre aquilo que ele faz por compulsão, por fuga ou por repetição, e aquilo que nasce de uma decisão consciente. É nesse ponto que a personalidade deixa de ser reativa e passa a ser diretiva.

Nas camadas finais, o foco está na integração. O paciente passa a unificar pensamento, emoção, vontade e ação, desenvolvendo coerência interna. A personalidade amadurecida não é a ausência de conflitos, mas a capacidade de sustentá-los sem fragmentação psíquica. O sujeito deixa de ser dividido internamente e passa a se governar.

Ao longo de todo o processo, não imponho modelos ideais de personalidade. Minha função é ajudar o paciente a se tornar quem ele pode ser, com clareza, responsabilidade e autonomia. O desenvolvimento da personalidade, nesse sentido, não é adaptação ao mundo, mas a construção de um centro interno estável a partir do qual o indivíduo passa a existir e agir.

Individuação da Consciência

Por fim, para aqueles que estão dispostos, possibilito a experiência transcendental da individuação da consciência conduzindo o paciente a um ponto em que ele deixa de viver identificado com seus conteúdos psíquicos e passa a ocupar uma posição de observador lúcido de si mesmo. Não se trata de uma experiência mística no sentido vago do termo, mas de uma mudança estrutural na forma como a consciência se relaciona com a própria vida interior.

O primeiro passo é desmontar a confusão entre consciência e fenômeno psíquico. O paciente normalmente acredita que ele é seus pensamentos, seus afetos, seus impulsos e sua história. Ao longo do processo analítico, eu o conduzo a perceber que tudo isso são conteúdos que surgem, se organizam e desaparecem no campo da experiência, enquanto a consciência que os observa permanece. Essa distinção é fundamental: quando ela ocorre, algo se desloca radicalmente na posição subjetiva do indivíduo.

Em seguida, trabalho para que o paciente sustente essa posição de observação sem recorrer à dissociação defensiva ou ao intelectualismo. A individuação da consciência não é afastamento emocional, mas presença ampliada. Ele aprende a sentir plenamente sem se confundir com o que sente, a pensar sem se reduzir aos próprios pensamentos, a desejar sem ser escravizado pelo desejo. É nesse ponto que a consciência deixa de ser reativa e passa a ser ativa.

A experiência transcendental surge quando o paciente percebe, de modo direto e vivido, que sua identidade não se esgota no corpo, na psique nem nos papéis sociais. A partir da perspectiva tripartida do homem, ele reconhece que corpo e psique são expressões, instrumentos e campos de manifestação, mas não o centro último do ser. Esse reconhecimento não é imposto por crença; ele emerge da experiência clínica repetida de observação, escolha e responsabilidade consciente.

Nesse estágio, a consciência se individualiza porque deixa de estar diluída nos condicionamentos automáticos, nos afetos herdados e nas narrativas inconscientes. O paciente passa a experimentar a si mesmo como princípio organizador, capaz de ordenar seus impulsos, integrar suas contradições e orientar sua vida segundo valores conscientemente assumidos. Isso produz uma sensação clara de unidade interna, estabilidade e liberdade, que não depende de circunstâncias externas.

Portanto, ao longo da análise, eu não conduzo o paciente a “acreditar” em algo transcendental, mas a experimentar diretamente a diferença entre ser conteúdo e ser consciência. A individuação da consciência ocorre quando ele deixa de viver de dentro do turbilhão psíquico e passa a viver a partir de um centro interior estável e essa experiência, uma vez alcançada, transforma de modo irreversível sua relação consigo mesmo e com o mundo.